TÉCNICA BIOARTESANAL

O capim é cortado em sua base, amarrado em formas quadrangulares, com estrutura de ferro, e recolocado na área de que foi retirado. Entre as formas são plantadas algumas mudas de vegetação frondosa e de crescimento rápido. Quando estas plantas alcalçam uma altura suficiente para garantir sombra aonde o capim foi cortado, retira-se a forma e faz-se o plantio. Numa segunda etapa, este capim que estava em formas, e que foi retirado, é reintegrado à terra para ser reaproveitado no processo de adubagem. Esterco e lixo orgânico, acrescentados ao capim, aceleram seu processo de decomposição, transformando-o em pouco tempo em fertilizante pro solo.

O principal aspecto diferenciador da técnica bioartesanal é a retirada das touceiras de capim colonião do interior da área a ser reflorestada. Com a conseqüente exposição do solo, essa matéria morta é colocada em curva de nível, reduzindo a velocidade da chuva e retendo a lixiviação.

Nos espaços abertos entre as mudas, para cobrir o solo são introduzidos o feijão de porco (Canavalia ensiformes) e o feijão guandú (Cajanus indicus L.). Nos espaços queimados, onde a sucessão da flora ocorre espontaneamente, a vegetação rasteira aparece em meio a subarbustos e arbustos. Entre esses arbustos, há vegetais importantes por suas raízes nodulares e por perderem folhas, iniciando a recomposição da camada humosa do solo.

O patamar superior a este inclui arbustos deste grupo em fase final e arvoretas de muitas famílias. Estas são duráveis e seus frutos atraem pássaros e animais terrestres. O grupo seguinte inclui árvores de rápido crescimento e de pouca duração que, ao final de seus ciclos, formam a galeria terciária da mata jovem ou capoeira. Elas são importantes por guiar o conjunto para o alto, por meio da competição pela luz, por influenciar a temperatura do bosque e por gerar muita matéria orgânica, devido à perda de folhas. Introduz-se frutíferas duradouras e de lento crescimento, como apoio à avifauna e para estimular a biodiversidade do conjunto.

A inclusão de pioneiras e emergentes (iniciais ou tardias) é atitude estratégica na recomposição florística programada, pois o bosque pioneiro produz seis vezes mais matéria orgânica que a flora da mata final auto-sustentada. Conjuntos assim formados são menos vulneráveis ao fogo e criam condições favoráveis à germinação e ao crescimento de vegetais cujas sementes chegam com o vento e por outros meios.

Com este tipo de manejo, a manutenção do reflorestamento é única – faz-se necessário controlar somente a germinação do capim colonião. Neste estágio, a técnica também tem a vantagem de abrir espaços para a qualificação de mão-de-obra de jovens em busca de inserção no mercado de trabalho.

Após o plantio, é necessária uma intervenção mais intensa no primeiro semestre, sendo a freqüência das visitas regulada pela incidência de chuvas. Mas, em compensação, há uma substituição do capim colonião por uma massa verde de leguminosas. Nas técnicas tradicionais, ele é mantido em faixas lineares entre os terraços das mudas nas áreas de reflorestamento. A maior vantagem deste sistema é o aumento da capacidade competitiva da mata em relação ao capim nas áreas reflorestadas, levando à sua eliminação em até três anos.

A Florescer já colheu frutos do trabalho técnico realizado em áreas urbanas: o desenvolvimento, a adaptação e o registro da técnica bioartesanal. Ela tem esse nome por reciclar 100% da matéria orgânica do capim colonião retirado das áreas a serem reflorestadas. A técnica envolve o replantio de mudas em áreas degradadas e permite o alargamento natural da floresta remanescente.

A intenção da Florescer com a técnica bioartesanal é permitir o reflorestamento de grande parte das áreas degradadas do Rio de Janeiro, e, em especial, áreas em declive. Não há registro de iniciativas semelhantes na área do reflorestamento.

A capacidade desta técnica pode ser comprovada no morro São João, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, que possui uma faixa de mais de 30 mil m2 reflorestados. Em 1991, a Fundação Instituto Estadual de Florestas emitiu um parecer favorável à utilização da técnica bioartesanal. Ela foi também objeto de monografias da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O preparo da área:

Produz-se covas médias de 0,5 X 0,5 metros de profundidade, 1 metro de largura e 1 metro de diâmetro. Elas são cheias com 1,5 quilo de calcário dolomítico (CaMg) e com o condicionador Ribumim. O objetivo é melhorar as características físicas do solo, favorecendo o crescimento dos vegetais. A área do plantio é circundada por um aceiro de 20 metros de largura, como defesa contra o fogo.

O coveamento é produzido em desordem aparente. Este critério dispõe as covas sem alinhamento e lembra a distribuição casual da natureza sem, contudo, reunir exageradamente as espécies. Considera-se a circunferência hipotética das copas dos arvoredos na fase adulta e plantam-se, dentro dos círculos de sombras, as mudas que irão formar os patamares inferiores. Este processo mantém a galeria florestal.